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Arquivo de agosto de 2010

E chegamos!

sábado, 28 de agosto de 2010

 

swfc

Shanghai nos recebeu de forma calorosa. Literalmente. Temperatura de até 42°C e muita umidade nas últimas 3 semanas nos fizeram entender porque tudo aqui tem que ter ar condicionado. Em certos momentos, pensei estar em Dubai. 

As primeiras impressões das crianças foram ótimas. Estão gostando, tentando verdadeiramente se adaptar, levando com bom humor os problemas de comunicação. Acham graça, com toda razão, de alguns hábitos chineses: geralmente bebês não usam fraldas por aqui. Ao invés disso, as calças são abertas atrás e os bumbuns ficam de fora (sim, o resto é exatamente o que você imaginou). Motocicletas e “eletric bikes” andam por todo lugar e nos primeiros dias David e Lucas competiam para ver qual dos dois conseguiria encontrar o maior número delas andando nas calçadas, quase atropelando os pedestres. No trânsito a maioria dirige como louco. Ambos apostam se no próximo táxi haverá um bom ou mau motorista. Outra coisa divertida é ver os chineses andando de pijama na rua. É comum por aqui sair para comprar alguma coisa perto de casa e ir de pijama. Significa que a pessoa está tranqüila, relaxada, num momento de lazer.

 

Mas o que mais lhes agradou foi o assédio! Chinês adora criança, principalmente estrangeira. Quando vamos a lugares de muito movimento é comum que gente de todo tipo – mulheres, adolescentes, velhinhos e até marmanjos – nos parem pedindo para tirar uma foto. David e Lucas atendem com gosto, fazem pose e adoram estes cinco minutos de fama e sucesso. Fomos comer lámien outro dia. Uma senhora simpatissíssima, numa mesa próxima à nossa, notando a dificuldade do Lucas com os palitinhos, veio sem a menor cerimônia, sentou-se conosco e começou a dar a comida na boca dele, ensinando-o como manejar direito os tais kuài e a “chupar” o macarrão.

 

noodles 

 

A  Gabi, pouco a pouco vai buscando entrar na rotina, tentando fazer a casa funcionar mesmo sem a mudança ter chegado. Dia destes deu uma vontade danada de tomar o “Café Pilão” que trouxemos na mala. Como o filtro e coador só chegarão daqui a uns 60 dias, improvisamos a parafernália abaixo com uma garrafa plástica vazia e dois pregadores de roupa. Incrível como as limitações nos tornam criativos!

 

 parafernalia

 Já descobrimos vários supermercados onde é possível achar produtos iguais ou similares aos que consumíamos no Brasil. Carne, temperos, frutas e legumes já não são problema. Ao contrário, alguns itens como pescado e crustáceos aparecem em muita quantidade e maior qualidade. O arroz também é muito melhor (óbvio). O que faz falta mesmo é vinho, chocolate, queijo e lácteos em geral.

 

Quanto a mim, totalmente mergulhado no trabalho, enfrentando uma crise que resolveu se instalar justo no momento da minha chegada aqui. É a pior que o setor em que trabalho jamais enfrentou nesta região – Fazendo do limão uma limonada, a situação tem me obrigado a aprender muito rápido e a buscar soluções que até então não imaginávamos. Um verdadeiro intensivo de China que vou encarando com a famosa paciência Chinesa aliada ao bom humor e otimismo brasileiros. Esta mistura vai funcionar, tenho certeza!

Fomos!

domingo, 1 de agosto de 2010

A melhor definição das últimas semanas foi a da Gabi: um rolo compressor de emoções.

 

Detalhes e picuinhas: cancelar TV a cabo e internet, fechar conta em banco, preparar documentos para a imigração, abrir conta em outro banco, empacotar em casa, empacotar no escritório, jogar fora, tirar o visto, confirmar passagem, transferir o carro… e sempre um imprevisto ou alguém que não cumpre o prazo acordado.

 

Muito mais demonstrações de carinho do que esperávamos. Despedidas de todos os formatos: almoços simples e deliciosos (o jiló com angú da minha mãe; a dobradinha incomparável da Cida; o quibe de bandeja da Solzinho), presentes (a compota de manga da Eliana; o dicionário trilíngüe da Cami e do Rafa; a serigrafia dos colegas do Marketing Internacional), Jantares com uns 50 amigos (polenta e ragú para despedir dos paulistanos), grande arraial de São João com a família de Curitiba, um bolo muito especial no escritório, um Puro especialíssimo no jardim do Félix Bistrô. E Pizza. Muita pizza na Basílica. Porque em Shanghai o melhor que se encontra é “Pizza Hut”.

 

O que eu faço com esta coleção de temperos? Como degustar com pressa aqueles vinhos especiais, guardados com tanto cuidado, por tanto tempo? Dá para o sogro o Metaxa que, por falta de companhia, não foi bebido. E a coleção de pimentas? Vai ter que ficar mesmo? Esconde uns 10 pacotes de fermento biológico na mala que lá na China não tem. Leva Pó Royal também que lá é difícil de achar. Os vasos de alecrim, manjericão e tomilho? Doados para a vizinha. Olha os dois pacotões de cardamomo trazidos de Dubai. Nem abri. Dá para o Cláudio. Ele adora cardamomo. Açafrão? Vai, vai escondido na mala. O levain! Ih esqueci de secar o levain!!! Fica. Condenado à morte por inanição (baita ingratidão a minha!). Não, a pitangueira não dá prá levar… Pinhão também não.

 

Livros? Só os mais importantes. O resto a gente doa. Os de culinária vão todos de navio. Mas joga fora aquele monte de receitas recortadas de revista que jamais foram usadas, por favor. A coleção de Machado de Assis vai completa. Casa Grande e Senzala, o Aurélio e a Gramática também. E dos CDs não abro mão! A empresa de mudança chega e em apenas dois dias a casa fica completamente vazia.

 

Fazer as malas. Dez no total, todas pesadíssimas. Mais os dois violinos e a viola caipira, que levo como bagagem de mão. Três carros cheios de bagagem rumo ao aeroporto. “O senhor não ia embarcar um cachorro também?”, me pergunta a mocinha da KLM. Ia, mas por causa da quarentena o Petisco só voará no dia 31.

 

Amigos queridos aparecem de surpresa no aeroporto para mais um abraço. Fila enorme na imigração (como é que vamos sediar uma Copa do Mundo com esta infraestrutura?!?!). Nem dá tempo de passar no lounge. Vamos correr para o portão que esta já é a última chamada pra o vôo.

 

Embarcamos: “nossa, pai, que avião grande! Como ele faz pra voar? Tem televisão e joguinho !!!” Gabriela, com os olhos marejados, comenta: “nestes dias… Parece que um rolo compressor de emoções passou sobre nós!” Concordo em silêncio. Seguro firme sua mão e dou um abraço. Coloco o cinto, tiro os sapatos, ligo o Ipod como de costume. Aparece a playlist do Ivan Lins: Vieste, Daquilo que Eu Sei, Velas Içadas, Aos nossos filhos, Depende de Nós, Começar de novo… humm… parece ser uma boa música para este momento. Não, pensando melhor não. Começar de Novo é muito sorumbática, nada a ver conosco. Há outra bem mais apropriada. Aperto o play com vontade e a música começa:

 

No novo tempo…

Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos
(…)
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
(…)

No novo tempo, apesar dos perigos
A gente se encontra cantando na praça, fazendo pirraça

(…)

Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança

E decolamos rumo a Shanghai!

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