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Arquivo de agosto de 2011

dos Bons Tempos

domingo, 14 de agosto de 2011

Não sei que mecanismo é este que existe dentro da minha cabeça que me faz desenterrar – nos momentos mais absurdos – as memórias mais remotas da minha infância e pré-adolescência. Via de regra, são cenas corriqueiras, fatos banais, desinteressantes. Porém as lembranças de episódios peculiares junto a pessoas queridas também surgem de vez em quando.

Talvez Freud, Jung, Lacan ou então o Dr. Pinel possam explicar como é que outro dia, passando pelo porto em Hong Kong, a caminho do aeroporto, meu pensamento foi parar lá nos meus 9 ou 10 anos de idade, em Ribeirão Preto. A reminiscência veio em forma de um Coquetel de Camarão, inesquecível, que comíamos na casa do Manel, Táta, André e Nanda, amigos da família há muito tempo. Eu acho que este era um “signature dish” da Táta, num tempo em que camarão era coisa difícil de achar, especialmente lá no Oeste do Estado de São Paulo. Tempo também em que o termo “signature dish” ainda nem havia sido inventado!

Por sorte está aí o abominável Facebook (sobre o abominável escreverei um dia destes) com uma de suas pouquíssimas serventias que é permitir manter algum contato com os amigos que estão longe (bem, na verdade quem está longe sou eu… mas esta também é outra história) ou com aqueles que, apesar de especiais, costumamos encontrar de forma bissexta. Mandei uma mensagem prá Nanda, que respondeu no dia seguinte, com a receita. Preparei exatamente conforme as instruções, a não ser por umas gotinhas de Tabasco e um pouco mais de Gin do que o indicado (licença poética!). Comi, como nos velhos tempos, com torradinhas (na época eram as famosas “Bi-tost Bauducco”). Terça feira próxima tem mais Hong Kong: vamos ver onde o pensamento vai parar.

coquetelcamarao

 

Coquetel de Camarão
da Maria Carmem Balau

Ingredientes:

- 3 xícaras de maionese (se puder faça a sua. Aqui tem o processo completo)
- 1 xícara de creme de leite.
- ½ xícara de ketchup.
- 3 colheres de sopa de molho inglês (Worcester Sauce).
- 3 colheres de sopa de gin.
- Bastante camarão, descascado, limpo e cozido em água + sal + limão.

Modo de Preparo:

1. Pique os camarões bem miudinhos (reserve alguns para enfeitar).
2. Misture a maionese, o creme de leite, o ketchup, o molho inglês e o gin. Acrescente o camarão picado. Leve à geladeira.
3. Sirva em taças tipo coqutel e enfeite com camarões inteiros.
4. Acompanha salada e/ou torradinhas.

和西安一样的马路

domingo, 7 de agosto de 2011

A mesma rua em Xī’an.

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一年 (Um Ano)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

26 de julho de 2010: Desembarcávamos em Pudong, um calor insuportável. Ah se houvesse quem fotografasse a nossa cara… Gabi otimista e cansada. As crianças num misto de espanto, curiosidade e excitação. Eu sério, tentando disfarçar o medo. A responsabilidade de construir coisas novas pesando. E se não der certo? E se não conseguirmos? E se estivermos colocando todo o nosso futuro a perder? E se, e se, e se?

Nunca me senti tão baratinado e impotente quanto nas primeiras semanas. A língua dificílima (eu já sabia). Impossível falar, pedir, ler, entender ou comunicar qualquer coisa. Pensava cá comigo: “Será que estes chineses realmente não estão me compreendendo? Não, não é possível! Minha mímica é claríssima! Acho que eles fingem que não estão entendendo para não ter que fazer o que eu peço”. Pior ainda era quando alguém do escritório tinha de servir de intérprete, nos momentos em que meus interlocutores não falavam nada de Inglês. Eram longas discussões em Mandarin, eu assistindo com cara de paisagem e pensando: “caramba, eles estão brigando, o que será que está acontecendo? O que será que estão conversando? Vai dar tudo errado!”. E ao final de minutos que pareciam horas, o caridoso intérprete da vez concluía: “Ok, ok, Mr. Roger. They said they will do their best solve your problems!”.

E “problems” não faltavam no começo: dos mais singelos aos mais complexos. Desde não reconhecer o sal e o açúcar na prateleira do supermercado até passar uma tarde inteira detido na delegacia por esquecer-me de comunicar à polícia do bairro que havíamos saído do hotel e mudado para nosso endereço definitivo.

Mas não são os problemas que eu quero tratar aqui. Eles ainda existem e continuarão nos desafiando. Quero mesmo falar é que já caminhamos muito além do que imaginávamos desde que começamos a “escalar a muralha da China”. Superamos muitos obstáculos. Conquistamos nosso espaço, passo a passo.

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Sozinhos, obviamente não teríamos conseguido. Sentimos a mão e a presença de Deus em cada minuto que se passou. Logo na chegada surgiram amigos que nos deram dicas preciosas. Dispostos a nos ajudar a qualquer hora, dividiram conosco suas experiências, sucessos e fracassos, o que ajudou a evitar muitos erros e aborrecimentos. Alguns já voltaram para seu país de origem. Muitos continuam por aqui. E imagine só? Hoje nós também fazemos, com muito prazer, o papel de apoiar os recém chegados.

Conhecemos gente maravilhosa, que batalha conosco diariamente, com dedicação, carinho e alegria. E o saldo até o momento são mais sorrisos do que sisudez. Na maioria das situações os chineses com quem convivemos têm sempre um olhar cordial e a disposição de nos entender e ajudar.

Aprendemos muito. E seguimos no aprendizado, erros e acertos, degrau a degrau. A comunicação aos poucos vai se tornando menos complexa. Encontram-se os caminhos, os truques, e as “pérolas escondidas” da cidade. Chegam os primeiros amigos chineses. E o conforto de sentir-se menos Lăowài e mais shanghainês vai aparecendo.

Estamos felizes e acho que é por isso que me impus a obrigação de escrever a respeito. É interessante registrar neste blog as curiosidades e peripércias de nossa vida chinesa. Mas mais importante é contar as bênçãos e as vitórias. Obrigado, Deus!

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