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Pererê…paciência…

 

Primeiro de maio, brincadeira de pique bandeira com os filhos. De repente o quarentão aqui resolve tentar segurar um marmanjote de uns 15 anos que cruzava o campo para marcar mais um ponto. Um tranco, um estalo na perna, a pior dor que já senti. Hospital e uma ressonância magnética revelando um ligamento do joelho totalmente rompido, além de alguns traumas colaterais.

 

Faz 14 dias que não coloco o pé esquerdo no chão. Na primeira semana tive que ficar em casa, repouso forçado. Agora voltei ao escritório. Preciso aguardar mais cinco semanas – tempo demasiado longo para meu ritmo de vida – até que o joelho cicatrize por completo. Então farei a cirurgia que reconstituirá o ligamento.

 

Andar de muletas faz com que você enxergue aspectos da vida que costumam passar despercebidos. Definitivamente o mundo não foi projetado para quem as utiliza. É difícil me movimentar sozinho. Nunca havia percebido, mas estamos cercados de escadas, buracos, subidas e obstáculos que parecem intransponíveis quando você tenta andar com uma perna apenas. Tudo ficou instantaneamente complicado e lento. Percebi o quanto preciso dos que estão ao meu redor.

 

A rotina agora é redundantemente programada e sistemática: a que horas chamarei o táxi que vai me levar ao trabalho? Quem vai me buscar na recepção e carregar minha mochila até a mesa? Será que podemos marcar nossa reunião numa sala mais próxima? Por gentileza, dá para pegar um material que eu mandei imprimir?Já que vocês vão sair para almoçar, podem trazer um sanduíche, por favor? Viagens, nem pensar.

 

Em casa não é diferente. Subo e desço as escadas “de bunda”, tomo banho sentado no chão. Descobri que moletons, apesar de ultracafonas, são bem confortáveis quando se tem que colocar um imobilizador na perna. Brincar com o David e o Lucas agora se resume a desenhar, ler historinhas e ver DVDs infantis. Perdi um pouco do apetite, o que é bom porque não quero ganhar peso neste período. Nunca fiquei tanto tempo parado, nunca assisti a tanta televisão.

 

Gabriela tem sido heróica cuidando sozinha das crianças e de mim. E meus pais têm ajudado também. De um dia para o outro aprendi a depender de outras pessoas para as tarefas mais simples. E não posso negar: esta dependência tem me feito pensar muito e ponderar uma série de atitudes e valores. Até onde vai a minha pseudoindependência? Sem dúvida a vida está me ensinando nesta fase em que minha paciência e a de quem tem me ajudado têm sido testadas.

 

Estou sentindo muita falta de cozinhar. Com as duas mãos ocupadas pelas muletas, não consigo nem preparar um leite com granola. Quando é necessário dou instruções ao piloto de fogão da vez. Foi o que aconteceu com uma receita de “no knead bread” (pão sem sova) que vi no ótimo blog do Luiz Américo. Neste vídeo é possível acompanhar o passo a passo. Por ser facílimo de fazer, é muito adequado para quem está momentaneamente “inativo”. É possível executa-lo com apenas uma mão! E pelo longo tempo de fermentação – pelo menos 12 horas – é perfeito para aqueles que, como eu, estão exercitando sua paciência.

 

O resultado é surpreendentemente bom. Substituí metade da farinha refinada por farinha de trigo integral e o pão ficou delicioso, com uma casca crocante e interior macio, sem nada de sabor de fermento. Antes de assar, cobri o pão com flocos de aveia, o que deu um aspecto bem legal.

 

Matou parcialmente a vontade de cozinhar, saciou o desejo por um ótimo pão caseiro e ajudou o tempo a passar mais rápido.

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No-knead Bread

Receita de Jim Haley da Sullivan Street Bakery

 

Ingredientes:

 

- 3 xícaras de farinha de trigo (utilizei 1 xícara e meia de farinha branca e 1 xícara e meia de farinha integral).

- ¼ de colher de chá de fermento biológico instantâneo.

- 1 e ½ xícara de água.

- 1 e ¼ colher de chá de sal (da próxima vez colocarei mais um tico de sal).

- Flocos de aveia, farinha de trigo integral ou sêmola de milho, o quanto baste para polvilhar.

 

Modo de preparo:

 

1. Numa tigela grande, misture todos os ingredientes secos (exceto os flocos de aveia, farinha integral ou sêmola de milho, que serão usados posteriormente para polvilhar). 2. Acrescente a água e misture por cerca de 1 minuto, até que se forme uma massa homogênea.

3. Cubra a tigela com um pano e deixe a massa crescer por 12 horas.

4. Após este período, vire a massa sobre uma superfície enfarinhada. Dobre-a como um envelope (assista ao link que fica bem claro…), vire-a de cabeça para baixo e coloque-a sobre uma superfície polvilhada com bastante farinha integral ou sêmola de milho, ou flocos de aveia. Polvilhe a parte de cima da massa, cubra com um pano e deixe crescer por cerca de 2 horas ou até dobrar de tamanho.

5. Coloque uma panela grande esmaltada (tipo Le Creuset) ou uma panela de ferro com a tampa no forno e preaqueça por 30 minutos a 220°C.

6. Retire a panela do forno, coloque a massa bem polvilhada, tampe e coloque no forno para assar por 30 minutos.

7. Após 30 minutos, destampe a panela e deixe o pão dourar por cerca de mais 15 minutos.

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7 comentários para “Pererê…paciência…”

  1. Patrícia disse:

    Espero que melhore logo. Achei muito interessante você estar refletindo sobre o que te acontece. Com certeza não é todo mundo que faz isso, que tem sensibilidade para tal.
    =)
    Ficou ótimo o site! Parabéns!
    beijo

  2. Rogério disse:

    Obrigado, Patrícia.
    Aos poucos o joelho vai melhorar…
    Que bom que você gostou da nossa “nova cozinha”.
    Beijo
    Rogério

  3. Lígia disse:

    Rogério, desejo começar elogiando seu gosto musical, (apesar de eu mesma preferir os modernos aos barrocos) e indicar uma rádio online que pode, talvez, ajudá-lo a passar por esse momento de novas descobertas corporais ( já observou como seus movimentos são, em sua maioria, codificados e automáticos?) : http://www.jazz24.org

    Hei de cumprimentá-lo também, pela qualidade do site. Acompannhava o blog já há algum tempo, e seguirei com a leitura prazerosa pelo novo endereço. Tanto na parte literária, quanto visual, pois as fotos também se mostram feitas com grande zêlo.

    Bom exercício de paciência, espero que a recuperação seja rápida e o mais indolor possível.
    Parabéns belo ótimo site!

  4. Rogerio disse:

    Oi Lígia, tudo bem?

    Obrigado pela ótima dica da rádio! Já adicionei aos links.

    Sim, eu estou (re) aprendendo uma série de movimentos: calçar meias…cobrir-me com o edredon, etc… É verdade, todos movimentos automáticos e mecânicos que agora tem de ser pensados e planejados com antecedência. Está sendo um período interessante.

    Agradeço as palavras carinhosas sobre minha recuperação. Vai passar rápido!

    Abraço
    Rogério

  5. Nina disse:

    Pois é, ver a vida de outra forma. Ainda bem que é temporário. Imagina ter que desviar dos buracos para o resto da vida?!
    Apesa de não ser a maneira clássica de fazer pão, aprecio esta receita. J]
    bjo

  6. Silvia - BH disse:

    Rogério,

    A propósito da msg acima, a Nina postou algumas variações deste pão. Como ela diz, ainda bem que é temporário, contudo se puder ter presente o que sentiu e as dificuldades que teve durante este período, poderá ser atento a outros que as têm de forma duradoura.

    Um exercício que vou voltar a fazer é o de imaginar como outra pessoa que tenha dificuldades se sente apenas do ponto de vista de movimentação e de segurança. Resido em BH e não sei se é possível dar três passos em algum ponto da cidade onde não haja irregualridade no passeio. : ( Mesmo não podendo ter interferência pública, certamente ser mais atencioso já faz o mundo melhor para quem está tendo alguma dificuldade, não é? Fiquei aos 24 anos por uns dias sem conseguir me movimentar também por causa do joelho e justamente, a pessoa de quem todos gostávamos pouco, a mais antipática, foi a ÚNICA
    solidária. Foi visitar-me para fazer compressa de gengibre. Depois, tratei-me com acunputura com um bom chinês e nunca mais tive problema.

    A acunputura é, ao meu ver, o que há de melhor para o completo restabelecimento mesmo após a cirurgia que já deve ter feito.

  7. Rogerio disse:

    Oi Silvia,
    Hoje eu fiz de novo este “no-knead” bread. Mas como aqui em S. Paulo está gelado, não cresceu tanto como deveria.

    Neste meu processo todo de convelescência tive muitas surpresas. Recebi carinho de gente que eu jamais esperaria. “Caíram muitas fichas”; aprendi muito: física e espiritualmente. Já, já este processo estará terminado, deixando muitas lições.

    beijo
    Rogério

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