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Jantar em Riyadh

Tudo começa num grande salão, sem móveis, forrado de tapetes persas. Chama a atenção uma coleção de bules de café, antiqüíssimos. Você tira o sapato, entra e senta no chão, encostado na parede, sobre as almofadas. Num canto, dentro de um pote de metal, uma brasa de sândalo perfuma o ambiente de um jeito rústico e ao mesmo tempo agradável – nada a ver com esta moda de incenso enjoativo das lojinhas esotéricas.

Na sala homens, apenas homens. Durante toda a noite não se verá uma mulher.

Vêm o café com cardamomo, umas tâmaras frescas bem macias e biscoitos de coalhada. A conversa começa. Reticente, apenas amenidades. É o modo árabe de iniciar um banquete. Definitivamente eles não têm pressa. Porque na Arábia Saudita o tempo passa (muito) devagar. É proibido consumir bebida alcoólica. As mulheres não freqüentam os restaurantes com os homens. As opções de diversão (no conceito ocidental) são limitadas. A paisagem é monótona, na maioria das vezes. O relógio parece que não anda. Tudo é feito com calma. As refeições são longas, como longos são os hiatos quando se conversa. Algo que nós brasileiros estranhamos muito. Alguém faz uma pergunta, a resposta demora a vir. É dada de forma cadenciada, pensada e filosófica. Outro silêncio, outra pergunta, outra resposta. Hora da refeição principal. Todos se levantam.

Em outra sala, a comida está sobre o tapete. Quem fica desconfortável pode usar um banquinho. Mas o legal mesmo é ficar no chão. Não me dei ao trabalho de contar os pratos frios, mas eram muitos, muitos mesmo. Todos deliciosos e servidos com fartura por muitos de serviçais – são geralmente filipinos ou paquistaneses que procuram uma vida de mais oportunidades fora de seus países de origem. Segue a conversa lentamente. O anfitrião fazendo questão de que você encha o prato e prove de tudo. Mais por gula e curiosidade do que por educação, aceito de bom grado. Na primeira vez que estive por lá, faz uns dez anos, aprendi que não é ofensa deixar comida no prato. Pelo contrário, se você comer tudo, alguém vem e lhe serve mais.

Vou degustando aos pouquinhos, tratando de deixar lugar para os pratos quentes que virão em seguida. Meus preferidos são uma papa de trigo, leite e caldo de carneiro, cujo nome nunca perguntei. E o kabsa – um frango cozido delicioso, servido sobre arroz basmati. Gosto de comer o arroz com um pouco de Achar Tamat, bem picante. Não é o costume local, mas fica uma delícia.

Depois frutas frescas e toalhas geladas para limpar as barbas e as mãos. Mais conversa, mais filosofia. Barriga cheia, entra-se no tema dos negócios. Como está o mercado, a crise mundial, perspectivas para o futuro e muitas solicitações. Precisamos melhorar isto, baixar o preço daquilo, ajudar o cliente tal. De praxe.

Umas quatro horas se passaram e todos vão para a varanda aproveitar a noite que nesta época do ano ainda é amena. Chegam os doces e as frutas secas. E mais conversa de trabalho. Perguntas cheias de segundas intenções que servirão de argumento para a rodada de reuniões do dia seguinte. Já estamos acostumados.

Hora do cigarro para quem fuma, do chá de menta e do café. E continuamos a falar de negócios.

O jantar chega ao fim, mais por cansaço dos convidados do que por vontade dos anfitriões. Se dependesse da hospitalidade árabe ainda ficaríamos por lá por pelo menos mais três horas…


Kabsa (arroz com frango ao estilo saudita)

Ingredientes:

- 1kg de peito de frango, sem pele e cortado em cubos.
- 5 colheres de sopa de azeite de oliva.
- 2 cebolas grandes em fatias bem finas.
- 5 tomates bem maduros, sem pele e sem sementes.
- 4 dentes de alho picados.
- 2 cenouras médias raladas.
- raspas da casca de 1 laranja.
- 4 cravos da índia.
- 4 bagos de cardamomo.
- 2 paus de canela.
- Sal e pimenta do reino a gosto.
- 400g de arroz basmati (prefira o paquistanês).
- 3 xícaras de água fervente.
- ¼ de xícara de passas brancas.
- ¼ de xícara de pinolis tostados.

Modo de Preparo:

1. Numa panela grande, refogar a cebola no azeite até que fique bem dourada (quase marrom).
2. Acrescentar os cubos de frango, mexendo por 2 ou 3 minutos.
3. Acrescentar os tomates picados e o alho. Misturar, baixar o fogo e deixar cozinhar por 5 minutos.
4. Acrescentar 3 xícaras de água fervente, a cenoura ralada, as raspas de laranja, os cravos, os bagos de cardamomo e a canela. Acertar o sal. Tampar e cozinhar por cerca de 25 minutos.
5. Retirar o frango da panela e reservar. No líquido que sobrou colocar o arroz, já bem lavado e cozinhar até que o todo caldo seja absorvido e o arroz esteja macio (se necessário, colocar um pouco mais de água quente).
6. Apagar o fogo e deixar a panela tampada por uns 10 minutos. Neste meio tempo, re-aquecer o frango.
7. Colocar o arroz sobre um prato grande redondo, dispondo os cubos de frango por cima. Salpicar com as passas e os pinolis.

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2 comentários para “Jantar em Riyadh”

  1. Que beleza de casa nova! Ficou lindo o novo lay-out do excelente Amusebouche. E este prato à moda saudita… vou experimentar.
    Sabia que sou egípcia e herdeira das tradições culinárias de minha mãe, que pratico regularmente aqui em casa para deleite da família? Obrigada pela visita ao Admirável Mundo Líquido, você vai gostar da sopa marroquina. Hoje vou experimentar outra parecida que leva molho de gergelim (tehina). Bom fim de semana< Micheline

  2. Rogerio disse:

    Obrigado, Micheline!

    Não é para rasgar seda, mas outro dia estava dando uma olhada no Blog do Jorge e achei o conteúdo muito legal. Preciso de mais tempo para ler com calma…

    Sei que o “Admirável Mundo Líquido” é sobre sopas, mas bem que você podia dividir conosco algumas destas receitas egípcias, hein?

    Como falei, vou fazer a sopa esta semana, provavelmente na 2a. ou 3a. feira.

    Bom fim de semana para você também!

    Rogério

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