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Jantar em Riyadh

segunda-feira, 4 de maio de 2009
Tudo começa num grande salão, sem móveis, forrado de tapetes persas. Chama a atenção uma coleção de bules de café, antiqüíssimos. Você tira o sapato, entra e senta no chão, encostado na parede, sobre as almofadas. Num canto, dentro de um pote de metal, uma brasa de sândalo perfuma o ambiente de um jeito rústico e ao mesmo tempo agradável – nada a ver com esta moda de incenso enjoativo das lojinhas esotéricas.

Na sala homens, apenas homens. Durante toda a noite não se verá uma mulher.

Vêm o café com cardamomo, umas tâmaras frescas bem macias e biscoitos de coalhada. A conversa começa. Reticente, apenas amenidades. É o modo árabe de iniciar um banquete. Definitivamente eles não têm pressa. Porque na Arábia Saudita o tempo passa (muito) devagar. É proibido consumir bebida alcoólica. As mulheres não freqüentam os restaurantes com os homens. As opções de diversão (no conceito ocidental) são limitadas. A paisagem é monótona, na maioria das vezes. O relógio parece que não anda. Tudo é feito com calma. As refeições são longas, como longos são os hiatos quando se conversa. Algo que nós brasileiros estranhamos muito. Alguém faz uma pergunta, a resposta demora a vir. É dada de forma cadenciada, pensada e filosófica. Outro silêncio, outra pergunta, outra resposta. Hora da refeição principal. Todos se levantam.

Em outra sala, a comida está sobre o tapete. Quem fica desconfortável pode usar um banquinho. Mas o legal mesmo é ficar no chão. Não me dei ao trabalho de contar os pratos frios, mas eram muitos, muitos mesmo. Todos deliciosos e servidos com fartura por muitos de serviçais – são geralmente filipinos ou paquistaneses que procuram uma vida de mais oportunidades fora de seus países de origem. Segue a conversa lentamente. O anfitrião fazendo questão de que você encha o prato e prove de tudo. Mais por gula e curiosidade do que por educação, aceito de bom grado. Na primeira vez que estive por lá, faz uns dez anos, aprendi que não é ofensa deixar comida no prato. Pelo contrário, se você comer tudo, alguém vem e lhe serve mais.

Vou degustando aos pouquinhos, tratando de deixar lugar para os pratos quentes que virão em seguida. Meus preferidos são uma papa de trigo, leite e caldo de carneiro, cujo nome nunca perguntei. E o kabsa – um frango cozido delicioso, servido sobre arroz basmati. Gosto de comer o arroz com um pouco de Achar Tamat, bem picante. Não é o costume local, mas fica uma delícia.

Depois frutas frescas e toalhas geladas para limpar as barbas e as mãos. Mais conversa, mais filosofia. Barriga cheia, entra-se no tema dos negócios. Como está o mercado, a crise mundial, perspectivas para o futuro e muitas solicitações. Precisamos melhorar isto, baixar o preço daquilo, ajudar o cliente tal. De praxe.

Umas quatro horas se passaram e todos vão para a varanda aproveitar a noite que nesta época do ano ainda é amena. Chegam os doces e as frutas secas. E mais conversa de trabalho. Perguntas cheias de segundas intenções que servirão de argumento para a rodada de reuniões do dia seguinte. Já estamos acostumados.

Hora do cigarro para quem fuma, do chá de menta e do café. E continuamos a falar de negócios.

O jantar chega ao fim, mais por cansaço dos convidados do que por vontade dos anfitriões. Se dependesse da hospitalidade árabe ainda ficaríamos por lá por pelo menos mais três horas…


Kabsa (arroz com frango ao estilo saudita)

Ingredientes:

- 1kg de peito de frango, sem pele e cortado em cubos.
- 5 colheres de sopa de azeite de oliva.
- 2 cebolas grandes em fatias bem finas.
- 5 tomates bem maduros, sem pele e sem sementes.
- 4 dentes de alho picados.
- 2 cenouras médias raladas.
- raspas da casca de 1 laranja.
- 4 cravos da índia.
- 4 bagos de cardamomo.
- 2 paus de canela.
- Sal e pimenta do reino a gosto.
- 400g de arroz basmati (prefira o paquistanês).
- 3 xícaras de água fervente.
- ¼ de xícara de passas brancas.
- ¼ de xícara de pinolis tostados.

Modo de Preparo:

1. Numa panela grande, refogar a cebola no azeite até que fique bem dourada (quase marrom).
2. Acrescentar os cubos de frango, mexendo por 2 ou 3 minutos.
3. Acrescentar os tomates picados e o alho. Misturar, baixar o fogo e deixar cozinhar por 5 minutos.
4. Acrescentar 3 xícaras de água fervente, a cenoura ralada, as raspas de laranja, os cravos, os bagos de cardamomo e a canela. Acertar o sal. Tampar e cozinhar por cerca de 25 minutos.
5. Retirar o frango da panela e reservar. No líquido que sobrou colocar o arroz, já bem lavado e cozinhar até que o todo caldo seja absorvido e o arroz esteja macio (se necessário, colocar um pouco mais de água quente).
6. Apagar o fogo e deixar a panela tampada por uns 10 minutos. Neste meio tempo, re-aquecer o frango.
7. Colocar o arroz sobre um prato grande redondo, dispondo os cubos de frango por cima. Salpicar com as passas e os pinolis.

Paraíba no prato

segunda-feira, 30 de março de 2009

A Neide chegou de Sumé com a mala cheia de presentes para nós: cinco colheres de pau, uma panela de barro. Feijão de corda, manteiga de garrafa, queijo de coalho. Farinha de mandioca finíssima e um saco de cominho. Estes ingredientes só podiam dar num “baião de dois”.

Segui a receita do chef Rodrigo Oliveira que copiei do come-se. Usei charque de fabricação própria, muito coentro e meu molho de pimenta, cuja receita prometo para o próximo fim de semana.


Baião de Dois
Receita do chef Rodrigo de Oliveira

Ingredientes:

- 5 dentes de alho.
- 30g de manteiga de garrafa.
- 1kg de arroz.
- 2 litros de caldo de legumes.
- 3 folhas de louro.
- 5g de colorau.
- Sal a gosto.
- 100g de toucinho defumado em cubos.
- 200g de charque dessalgado, cozido e desfiado.
- 1 cebola roxa picadinha.
- 1 pimentão verde em cubos.
- 2 tomates, sem as sementes, em cubos.
- 1 kg de feijão fradinho cozido e escorrido.
- 100g de queijo de coalho em cubos.
- Coentro (muuuito coentro!) a gosto.
- Cominho a gosto.
- 50g de manteiga de garrafa.

Modo de Preparo:

1. Numa panela grande, frite o alho na manteiga de garrafa e, antes de dourar, junte o arroz e mexa bem. Junte o caldo fervente, o louro, o colorau e deixe cozinhar em panela tampada, fogo baixo, até os grãos ficarem macios. Reserve.
2. Frite o toucinho em sua própria gordura e, quando começar a dourar, junte a lingüiça e a carne seca, mexendo por mais alguns instantes. Reserve.
3. Na mesma panela, aqueça rapidamente a cebola, o pimentão e os tomates.
4. Misture o arroz, as carnes reservadas, o feijão fradinho e o queijo de coalho. Acerte o sal. adicione o cominho a seu gosto e finalize com o coentro e a manteiga de garrafa.

Sirva com o molho de pimenta e uma cachacinha porreta. Finalize com uma boa soneca na rede.

Beef Curry de meia tigela

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Só ontem consegui ler a edição do dia 13 do Paladar (Estadão). Com uma semana de atraso. Uma boa matéria sobre curries explicava que a versão em pó é invenção inglesa e foi criada por aqueles que voltaram da Índia com saudades da comida de lá.

Parece sacrilégio culinário, mas acho mesmo que os melhores restaurantes indianos estão na Inglaterra. O meu preferido é o “Bombay Brasserie” de Londres. Descobri-o por acaso, num dia em que resolvi pegar o metrô em Heathrow e descer em Gloucester Road para almoçar, perambular por South Kensingnton e matar 7 horas de conexão entre um vôo e outro. Vi a fachada relativamente modesta e entrei sem muita pretensão. Encontrei um ambiente bastante suntuoso, com serviço simpático e comida de execução bastante caprichada. Muito bons os pães: Naan e Poppadum fresquíssimos que vêm acompanhados de vários tipos de chutney. Voltei outras vezes e sempre que passo por lá peço algum prato “tandoori” style, que é uma das especialidades da casa.

Saudades do “Bombay Brasserie” e a reportagem do Estadão aguçaram minha vontade de algo bem apimentado. A intenção era fazer uma das receitas sugeridas pelo Paladar, mas a preguiça do feriado foi mais forte. Dei um pulo no supermercado mais próximo, comprei meia dúzia de coisas, e fiz este Beef Curry acompanhado de arroz basmati. Fajuto, porém rápido e prático.


Beef Curry de Meia Tigela

Ingredientes:

- 1 cebola grande cortada em cubos.
- 1 bom punhado de ervilhas-tortas.
- 1 colher de sopa de manteiga.
- 300g de filé mignon em cubos pequenos.
- 1/2 colher de sobremesa de Curry em pó (pode colocar mais se preferir um sabor mais forte).
- Sal a gosto.
- 2 colheres de sopa de iogurte integral.
- Pimenta vermelha picada, a gosto, se você estiver utilizando Curry em pó nacional e gostar de comida apimentada.

Modo de preparo:

1. Aqueça bem uma panela e coloque a manteiga. Quando a manteiga começar a “escurecer”, acrescente os cubos de filé mignon. Espere até que estejam dourados e acrescente o sal e a cebola. Mexa bem.
2. Quando a cebola começar a ficar transparente (porém ainda firme), acrescente o Curry em pó e a pimenta vermelha (se for o caso). Mexa bem.
3. Acrescente as ervilhas tortas, misture e aguarde cerca de 1 a 2 minutos (as ervilhas devem ficar firmes e crocantes, apenas levemente cozidas).
4. Apague o fogo, acrescente o iogurte, misture e acerte o sal.
5. Sirva com arroz basmati.

8a. Harmonização Virtual

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Mais uma harmonização virtual, a oitava, promovida pelo Gourmandise e pelo Le Vin Au Blog. Desta vez com uma recomendação de café feita pelo Espressa-mente.

Apesar do “forfait” do nosso convidado da noite – chovia muito em S. Paulo naquela 6ª. Feira – eu e a Gabi aproveitamos muito o jantar. Prato delicioso e vinho idem:

A receita sugerida:

foi a primeira vez que fiz um ragu de carne sem tomates (ragu de carne é redundância? Quem souber me avise.). Preparei o fundo de legumes na véspera e, no dia do jantar, cozinhei o ragu em fogo bem brando, por umas 3 horas. Foi tempo mais do que suficiente para que as cebolas desmanchassem por completo, tornando o molho muito cremoso. A canela deu um toque diferente e especial ao prato. Como não encontrei polenta bramata, utilizei semolina de milho.

Polenta com ragu de músculo (4 porções):

Ingredientes – Fundo de legumes:

- 200g de cenoura brunoise
- 200g de salsão brunoise
- 400g de cebola brunoise
- 2 dentes de alho esmagados
- 10 grãos de pimenta do reino
- 1 folha de louro
- talos de salsa
- 1L500ml de água
Cozinhe tudo em fogo baixo por 40 minutos à 1h. Amorne e coe, desprezando os legumes. Reserve o líquido.

Ingredientes – Ragu de músculo:

- 500g de músculo limpo em cubos grandes
- 2 cebolas roxas brunoise
- 2 dentes de alho picados
- ¼ tsp de canela em pó
- 50g de bacon brunoise (use a parte com mais carne e menos gordura)
- fundo de legumes (quanto baste) quente
- sal
- pimenta do reino
- óleo de milho ou girassol

Modo de Preparo – Ragu de Músculo:

Doure o bacon em óleo, doure a carne (em porções – reserve em um pote). Refogue a cebola e o alho no óleo residual da carne. Volte a carne à panela, acrescente algumas conchas de fundo de legumes quente. Tampe e cozinhe em fogo baixo por 2h30-3h30. Pode-se fazer em panela de pressão, mas a textura da carne não será a mesma (a pressão não amacia e sim arrebenta as fibras da carne). O seu tempo disponível definirá a sua cocção.
Na metade da cocção, una sal, pimenta do reino moída na hora e canela. Acrescente fundo quente conforme evaporar.
A carne deve ficar tenra e o caldo bem reduzido (como um molho).

Ingredientes – Polenta:

- 250g de polenta bramata
- 500g de fundo de legumes (vide receita)
- 500g de leite integral
- sal
- 50g de manteiga

Modo de Preparo – Polenta:
Leve tudo ao fogo, mexendo com fouet para não empelotar. Quando levantar fervura, abaixe o fogo e cozinhe, mexendo de vez em quando, por 30 minutos. Sirva imediatamente.

Montagem:
Disponha a polenta nos pratos e coloque o ragu por cima.

A bebida sugerida:

- Salton Desejo 2005. Merlot.
- Vinhos Salton S.A., Tuiuty, Bento Gonçalves, RS, Brasil.
Violáceo, muito intenso. Aromas de madeira, especiarias, chocolate-baunilha (ou melhor, manteiga de cacau), muitas frutas escuras. Elegante e bem resolvido na boca, corpo médio, frutado-tostado, acidez equilibrada e boa permanência. Delícia. R$ 63,00.

A Harmonização:

A combinação de ragu + carne é clássica. Temperar com canela para mim foi inovação. Muito acertada pois o tempero ressaltou os aromas de especiarias e, principalmente de “manteiga de cacau”/baunilha do vinho. Uma harmonização que funcionou muito bem, na minha opinião. O Salton Desejo 2008 foi uma excelente surpresa. Gostei mesmo. E confesso publicamente o preconceito (ou ignorância?) que tinha com relação a vinhos nacionais. Já havia provado alguns bastante corretos, mas nenhum que realmente me impressionasse. Ou que apresentasse uma boa relação custo x benefício. Este vinho quebrou paradigmas.

O Café:

Comprei o café indicado, mas já era bem tarde e resolvemos não tomar café naquela noite (Evitar café para que se possa dormir a noite toda: é aí que a gente vê que está ficando velho…). Prometo comentários ainda nesta semana.

Os Blogs que participaram:

Gourmandise, Le Vin Au Blog, Espressa-mente, Bons de Garfo e Enoteca

7a. Harmonização Virtual

terça-feira, 15 de julho de 2008

Cheguei. Com um dia de atraso, mas cheguei. Para participar da 7ª. Harmonização Virtual promovida pelo Gourmandise.

Motivo da demora: penei para conseguir a cerveja que seria harmonizada com o papillote de frango – a La Trappe Trippel. Na verdade, quando estava quase desistindo, achei a La Trappe Dubbel na Varanda Frutas. Como esta não era exatamente a bebida indicada, consultei a Nina, que me deu carta branca para ir em frente. Tudo corria bem e eu planejava preparar o prato para o almoço do último domingo. Acontece que o distraído que lhes escreve concentrou-se tanto na procura da cerveja que esqueceu dos demais ingredientes. Convenhamos, comprar aspargos frescos às 14hs de um domingo não é muito fácil. Nada que uma passadinha em 2 ou 3 supermercados no dia seguinte não resolvesse.

Ingredientes à mão, copos e talheres a postos, eis abaixo a receita, seguida de minhas impressões:

Papillote de frango e aspargo (a foto acima é do papillote antes de ser fechado)

Ingredientes:
- 1 ½ colher de sopa de manteiga
- 30ml de vinho branco seco
- 1 ½ colher de sopa de mostarda Dijon
- 1 colher de sopa de suco de limão
- ½ colher de sopa de manjerona fresca
- pimenta do reino moída na hora
- 2 filés de peito de frango (sem pele e sem osso)
- 227g de aspargo fresco
- 72g de cenoura em tiras finas e longas (julienne)
- clara de ovo (bata até desfazer)
- 2 folhas de papel manteiga (30,5 X 38cm)
Modo de Preparo:
1. Aqueça o forno à 200ºC.
2. Misture vinho, mostarda, suco de limão, manjerona e pimenta.
3. Doure os filés em ½ colher de manteiga derretida. Retire do fogo e corte cada filé em 5-6 fatias (na diagonal).
4. Faça os papillotes: pincele clara de ovo nas laterais do papel manteiga , dobre ao meio (formando um retângulo), feche as duas laterais (dobrando e fechando bem).
5. Coloque os legumes e o frango (metade em cada), distribua o molho nos dois papillotes, regue com a manteiga derretida restante. Feche bem, dobrando.
6. Caso o papel manteiga usado seja muito fino, faça pacotes duplos.
7. Asse por cerca de 12 minutos.
Achamos (eu e a Gabi) a receita deliciosa. Equilibrada, saborosa, Light. O tempo de forno está perfeiro e os legumes saíram com frescor e crocância ideiais. Definitivamente anotado no caderno de receitas. Como acompanhamento servi batatinhas ao murro, pinceladas com manteiga.
Foi a primeira vez que degustei cerveja “seriamente”, tentando prestar atenção em aromas, corpo, coloração e persistência. Confesso que tive dificuldade. Estou mais acostumado com vinho. Na minha opinião, o amargor característico da “La Trappe” combinou bem com o aroma da manjerona fresca. Mas as congruências param por aí. Achei que a cerveja encobriu demais as sutilezas e sabores do prato. Não funcionou. Apesar disto, não há como negar que a cerveja é gostosa. Aliás, gosto mais deste tipo de cerveja do que das tipo Pilsener.
- La Trappe Dubbel Trappistenbier, 7% vol.
- Fabricado por Koningshoeven, Berkel-Enschot, Holanda.
Caramelo escura, levemente adocicada. Herbácea, especiarias (noz-moscada?). Saborosa, corpo médio, boa permanência. R$ 36,00 na Varanda Frutas.
Veja também as impressões da Nina e Marcel, Rafaela e Cláudio e do Edu

Carne de Charque

segunda-feira, 24 de março de 2008

Vegetarianos, tirem as crianças do computador! AmuseBouche adverte: O texto e as cenas a seguir são impróprios para os que não comem carne (prometo duas boas receitas vegetarianas ainda esta semana).

Conforme eu já havia prometido, vamos falar de Charque e como prepará-lo.

Comecemos com um pouco de história: no século XIX, o produto chegou a ser importantíssimo para a economia do Rio Grande do Sul. Naquela região, grande parte do gado era abatida para o aproveitamento do couro, enviado para todo o Brasil. Salgar a carne era a melhor maneira de conservar e aproveitar o “resto” do animal. O consumo crescente fez a produção gaúcha ganhar força. O charque produzido no Rio Grande passou a fazer parte da dieta dos brasileiros da época, principalmente dos escravos.

Charque (do quéchua xar’qui), Carne-Seca, Jabá (do tupi yaba – esconder-se), Carne- de-Sol…qual a diferença entre eles? Pesquisando a internet não encontrei nenhuma fonte que me convencesse (aceito sugestões). Deixo a explicação do meu sogro, gaúcho de Quarai, que aprendeu a prepará-lo com sua avó: Charque é feito com mais sal e tem de ser seco à sombra, por mais tempo que a Carne-de-Sol nordestina.

O processo é simples, quase primitivo. Pode-se optar por qualquer corte bovino, desde que seja “em manta”. Utilizo um bife de coxão-mole de aproximadamente 1kg, com 3 dedos de espessura.. A peça deve ir para uma bacia, com muito sal grosso por baixo e por cima (figuras 1 e 2). Ficará lá, coberta por um pano limpo, durante 72 horas (figura 3). A cada 24 horas a bacia deve ser inclinada na pia para drenar o líquido que se desprender. Após este período a carne deve ser espetada com um ganchinho – peça ao seu açougueiro para lhe dar um – e pendurada à sombra, num local arejado (figura 4), por 60 horas (figura 5). Feito isto, é tirar todo o excesso de sal grosso, embrulhar em filme plástico e guardar (figura 6).


Você deve ter notado que o aspecto do charque caseiro é bem diferente do industrializado, geralmente vendido nos supermercados em embalagens a vácuo. Isto se deve à presença dos sais de cura (nitrito e nitrato) no processo produtivo. Eles reagem com a mioglobina e conferem à carne aquela cor vermelha meio artificial. A diferença de sabor também é perceptível: o Charque caseiro é muito mais saboroso e não tem a “murrinha” do produto processado.

Portanto, para quem é fã de um Arroz Carreteiro ou de uma Roupa Velha, vale a pena gastar um tempinho, escolher carne de excelente procedência e fazer charque em casa. Aguardem para breve algumas receitas…

Ensopadinho…

sábado, 15 de março de 2008

Acontecia sempre às quartas-feiras no almoço. A receita era bem simples – carne e legumes disponíveis, cortados em cubos, temperados, refogados e cozidos em um tiquinho de água. Era a forma de aproveitar os legumes que sobravam, sempre nas vésperas de feira (quando eu era moleque a gente ia à feira uma vez por semana…). Assim não havia desperdício. E o que sobrava do almoço era batido no liquidificador e virava sopa à noite, sempre com macarrão-argolinha.

Meu pai adorava: com o ensopadinho no prato, amassava levemente os legumes com garfo e sobre eles colocava um generoso fio de azeite. Para completar, arroz, feijão e salada de agrião. Nada mais trivial e brasileiro.

No último fim-de-semana, chegando de viagem, tive saudades daquele ensopadinho da minha infância. Infelizmente, minha mãe já tinha compromisso para o almoço de domingo, o que me obrigou a criar a minha própria versão, bem diferente da original (comida de mãe ninguém consegue imitar!).

Usei a panela de ferro, aproveitei um paio e quase todos os legumes da geladeira, um pouco de vinho tinto e algumas ervas. Para acompanhar, canjiquinha (quirera) cozida bem macia, na textura de polenta (4 partes de água para 1 de canjiquinha + manteiga e sal a gosto). Tomamos um “Escudo Rojo 2006”, que comprei no Freeshop por módicos US$ 14,50. Eis aí minha versão de “Comfort Food” familiar.

Ensopadinho à minha moda

Ingredientes:

- 700g de coxão mole cortado em cubos de aproximadamente 2cm.
- 1 colher de sopa de manteiga.
- 2 folhas de louro.
- 2 cravos da Índia.
- 1 colher de café de tomilho.
- 3 dentes de alho descascados.
- 1 paio em rodelas.
- 2 colheres de café de açúcar.
- 200ml de vinho tinto.
- 2 colheres de sopa de purê de tomate.
- 1 litro de caldo de carne.
- Legumes disponíveis, picados em cubos ou rodelas (depende do legume – nesta versão utilizei cebola, batata, cenoura, tomates-cereja, abobrinha, vagem, pimentão vermelho e amarelo).
- 1 galho de alecrim fresco.
- Azeite de oliva extra-virgem o quanto baste.

Modo de preparo:

1. Aqueça bem a panela de ferro.
2. Acrescente a manteiga, deixe-a derreter e refogue nela os cubos de carne. Geralmente a carne solta seu caldo neste momento. Mantenha o fogo bem alto até que todo caldo evapore e a carne comece a dourar. Neste momento, acrescente o açúcar, mexendo de vez em quando.
3. Acrescente então o paio em rodelas, os dentes de alho, os cravos da Índia as folhas de louro e o tomilho. Refogue por 1 minuto e acrescente o purê de tomate, mexendo sempre. Refogue por mais 1 minuto.
4. Acrescente o vinho tinto. Quando reduzir pela metade acrescente o caldo de carne. Tampe a panela, abaixe o fogo e deixe cozinhar por 30 minutos.
5. A partir deste ponto, basta ir juntando os legumes. Primeiro os que levam mais tempo para cozinhar, seguidos dos que cozinham mais rápido. Neste caso, coloquei primeiro as batatas e as cebolas. Quando estavam quase macias, acrescentei as cenouras. Esperei mais um pouco e, por último, coloquei o restante dos legumes, junto com o galho de alecrim (a foto do post é justamente deste momento). Tampei até que esta última leva de legumes estivesse cozida, porém firme. Reguei com azeite e servi imediatamente.

- Vinho: Escudo Rojo 2006, tinto.
- Baron Philippe de Rothschild, Maipo, Chile.
- 41% Cabernet Sauvignon / 41% Carmenère / 13% Syrah / 5% Cabernet Franc
Cor rubi escuro intenso, consistente. Aroma de pimenta vermelha seca, tostado e madeira. Na boca frutas vermelhas, ameixa. Acidez equilibrada, taninos finos, bom corpo. Carnoso. Gostoso.

Frango Assado

sábado, 19 de janeiro de 2008

Fim de semana tranqüilo. Mais tempo para cozinhar. E eu cansado de comer em restaurante a semana inteira. Vontade de comida caseira.

Logo depois do café comecei a pensar no que fazer para o almoço, pois estávamos com hóspedes. Algo saboroso, que não desse muito trabalho. Saí para o supermercado ainda sem inspiração. Vi um maço de sálvia bem bonito e na hora me veio a idéia: Frango. Frango assado com ervas. Bem temperado, com bastante alho… Não, alho vai ficar muito forte…melhor alho poró. E assim fui bolando o cardápio, que agradou as visitas e até a Gabriela, que, faz tempo, já não é muito fã de galináceos.

Para acompanhar, polenta mole, salada verde e um Pinnotage sul-africano.

Frango Assado com Ervas e Alho Poro

Ingredientes:

- 6 pernas de frango (coxa + sobrecoxa) desossadas.
- Suco de 1 limão.
- 1 colher de sopa de sálvia fresca, picada grosseiramente.
- 1 colher de sopa de alecrim fresco, picado grosseiramente.
- 3 folhas de louro inteiras (frescas).
- 1 colher de sobremesa de tomilho.
- 1 talo de alho poro, fatiado em rodelas finas (apenas a parte branca).
- Sal e pimenta do reino a gosto.
- 1 copo de Sauvignon Blanc.
- Azeite de oliva extra virgem o quanto baste.
- 1 pitada de páprica picante.

Modo de preparo:

1. Em uma tigela grande, faça uma marinada com: limão, sálvia, alecrim, as folhas de louro, tomilho, o alho, sal, pimenta do reino e o Sauvignon Blanc.
2. Coloque as pernas desossadas na marinada e deixe descansando na geladeira por 2 horas.
3. Num refratário, acomode as pernas desossadas, vertendo a marinada sobre elas. Regue com um fio de azeite.
4. Leve ao forno a 260°C por 45 minutos. Após este período, retire o refratário do forno. Se houver o excesso de líquido, retire-o com uma colher. Regue com um fio de azeite. Salpique um pouco de páprica picante, apenas para “dar uma cor”.
5. Volte o refratário ao forno por mais 15 minutos ou até que as pernas desossadas estejam douradas.
6. Sirva imediatamente.

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