Rogério Moraes 31/07/2010 • 3 min
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Fomos!

A melhor definição das últimas semanas foi a da Gabi: um rolo compressor de emoções.

Detalhes e picuinhas: cancelar TV a cabo e internet, fechar conta em banco, preparar documentos para a imigração, abrir conta em outro banco, empacotar em casa, empacotar no escritório, jogar fora, tirar o visto, confirmar passagem, transferir o carro… e sempre um imprevisto ou alguém que não cumpre o prazo acordado.

Muito mais demonstrações de carinho do que esperávamos. Despedidas de todos os formatos: almoços simples e deliciosos (o jiló com angú da minha mãe; a dobradinha incomparável da Cida; o quibe de bandeja da Solzinho), presentes (a compota de manga da Eliana; o dicionário trilíngüe da Cami e do Rafa; a serigrafia dos colegas do Marketing Internacional), Jantares com uns 50 amigos (polenta e ragú para despedir dos paulistanos), grande arraial de São João com a família de Curitiba, um bolo muito especial no escritório, um Puro especialíssimo no jardim do Félix Bistrô. E Pizza. Muita pizza na Basílica. Porque em Shanghai o melhor que se encontra é “Pizza Hut”.

O que eu faço com esta coleção de temperos? Como degustar com pressa aqueles vinhos especiais, guardados com tanto cuidado, por tanto tempo? Dá para o sogro o Metaxa que, por falta de companhia, não foi bebido. E a coleção de pimentas? Vai ter que ficar mesmo? Esconde uns 10 pacotes de fermento biológico na mala que lá na China não tem. Leva Pó Royal também que lá é difícil de achar. Os vasos de alecrim, manjericão e tomilho? Doados para a vizinha. Olha os dois pacotões de cardamomo trazidos de Dubai. Nem abri. Dá para o Cláudio. Ele adora cardamomo. Açafrão? Vai, vai escondido na mala. O levain! Ih esqueci de secar o levain!!! Fica. Condenado à morte por inanição (baita ingratidão a minha!). Não, a pitangueira não dá prá levar… Pinhão também não.

Livros? Só os mais importantes. O resto a gente doa. Os de culinária vão todos de navio. Mas joga fora aquele monte de receitas recortadas de revista que jamais foram usadas, por favor. A coleção de Machado de Assis vai completa. Casa Grande e Senzala, o Aurélio e a Gramática também. E dos CDs não abro mão! A empresa de mudança chega e em apenas dois dias a casa fica completamente vazia.

Fazer as malas. Dez no total, todas pesadíssimas. Mais os dois violinos e a viola caipira, que levo como bagagem de mão. Três carros cheios de bagagem rumo ao aeroporto. “O senhor não ia embarcar um cachorro também?”, me pergunta a mocinha da KLM. Ia, mas por causa da quarentena o Petisco só voará no dia 31.

Amigos queridos aparecem de surpresa no aeroporto para mais um abraço. Fila enorme na imigração (como é que vamos sediar uma Copa do Mundo com esta infraestrutura?!?!). Nem dá tempo de passar no lounge. Vamos correr para o portão que esta já é a última chamada pra o vôo.

Embarcamos: “nossa, pai, que avião grande! Como ele faz pra voar? Tem televisão e joguinho !!!” Gabriela, com os olhos marejados, comenta: “nestes dias… Parece que um rolo compressor de emoções passou sobre nós!” Concordo em silêncio. Seguro firme sua mão e dou um abraço. Coloco o cinto, tiro os sapatos, ligo o Ipod como de costume. Aparece a playlist do Ivan Lins: Vieste, Daquilo que Eu Sei, Velas Içadas, Aos nossos filhos, Depende de Nós, Começar de novo… humm… parece ser uma boa música para este momento. Não, pensando melhor não. Começar de Novo é muito sorumbática, nada a ver conosco. Há outra bem mais apropriada. Aperto o play com vontade e a música começa:

No novo tempo…
Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos
(…)
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança
(…)
No novo tempo, apesar dos perigos
A gente se encontra cantando na praça, fazendo pirraça
(…)
Pra que nossa esperança seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho que se deixa de herança

E decolamos rumo a Shanghai!

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