Rogério Moraes 24/05/2020 • 3 min
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Radiola 10 – Cardápio Reduzido

Ela voltou. Nesta semana a nossa querida Shanghai Symphony Orquestra retomou à rotina de concertos. De forma paulatina e com restrições, mas segundo o Doug He – meu amigo e manager da orquestra – com muita vontade!

Já à porta de entrada do SSO Concert Hall percebe-se a mudança provocada pelo novo normal (vulgo Covid 19): agora é preciso mostrar não só o ingresso, mas também o passaporte e o “código verde” da municipalidade de Shanghai (um app no celular que emite seu status com relação à doença. Se o QR code estiver verde, passe livre). A conferência é minuciosa, feita por duas pessoas. Há também a recomendação, ou melhor, a obrigação de usar máscara durante todo o concerto. Além disso, é proibido sentar fora do lugar estipulado no ingresso. O número de espectadores é muito reduzido e os assentos são marcados mantendo a distância de 3 poltronas entre cada pessoa.

Outra coisa que mudou foi a duração do espetáculo. O programa foi encurtado para caber em cerca de 1 hora apenas. Cardápio reduzido. Como fez a maioria dos restaurantes em Shanghai quando voltaram à ativa após a quarentena. As peças foram escolhidas de modo que não houvesse a participação dos instrumentos de sopro. Porque quando a direção da SSO estava planejando a retomada e redesenhando o repertório da temporada 2019-20, ainda não se sabia se o governo exigiria que os músicos usassem máscaras durante as performances. No palco, vê-se alguns músicos que tocam usando máscara. Ilustra bem o medo que o Shanghainês ainda tem. Mesmo com raríssimos casos ocorrendo na cidade, todos “importados”.

Começamos o programa com o Adágio para Cordas – Op.11, de Samuel Barber. Não me emocionei. Talvez porque eu mesmo já tenha tocado tantas vezes esta obra que já não consigo mais me surpreender com ela. Mas Zhang Jieming, a regente titular, estava lá, de corpo e alma. Firme. Pareceu-me um pouco constrangida e surpresa em tocar para tão pouca gente na plateia, acostumada que está de ver a casa sempre cheia. Os concertos da SSO costumam lotar.

Na sequência o ponto alto do dia: Música para Cordas, Percussão e Celesta – Sz.106, de Béla Bártok. A orquestra tocou de forma sensacional, principalmente levando em conta que tiveram apenas 2 ensaios e o “dress rehearsal” para se preparar. Uma interpretação focada, precisa e exuberante. Muita sensibilidade nos movimentos lentos. As cordas com tudo em cima e a percussão dizendo a que veio.

Por último, As Quatro Estação de Buenos Aires, de Piazzolla. Primeira vez que assisti ao vivo. Bonito, interessante, Piazzolla sendo Piazzolla. Mas pelo título e a inevitável comparação com a série de concertos homônima de Vivaldi, eu esperava mais, em termos de estrutura, densidade e profundidade musical. Achei que seria uma obra mais parruda. Li Pei, o spalla da orquestra, saiu-se muito bem como solista. Bonita sonoridade e técnica impecável. Gostei. Mas achei que poderia ter se sobressaído mais às cordas, quando tocavam juntos. Mais pujança, sabe? De qualquer forma, muito bom! Ótimo estar de volta com a família a uma sala de concertos. Aliás, obrigado aos amigos Ken e Gigi, que organizaram esta noitada. Terminamos com bacalhoada aqui em casa. Com direito a novos amigos, Sirquis e Alessandra, que conhecemos ontem. Foi sensacional. Tal qual a Orquestra, aos poucos as coisas voltam ao normal, com as adaptações que esta nova época nos impõe…

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